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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Conto - Chá do Abismo


Chá do Abismo

Um conto de Ericson Willians.
  1. Havia terminado de tomar o meu chá matinal, feito com ervas
  2. que minha linda mulher recolhe todas as manhãs lá na floresta,
  3. bem próximo ás pedras que são muito conhecidas
  4. por suas lendas e superstições aqui no vilarejo, devido à
  5. sua aparência exótica e desconfortante. Nelas haviam uma espécie
  6. de símbolo, que preenchia a parte central da superfície
  7. das pedras, muitos diziam que este foi feito por uma
  8. bruxa terrível que vivia na floresta, uma bruxa que fora completamente
  9. controlada pelos seres obscuros que vagam naquelas
  10. terras.
  11. Após tomar o chá me senti um pouco estranho, um tanto
  12. atordoado talvez, e muito cansaço nas pernas. Senti também
  13. uma tontura, me senti distante, levantei-me daquela
  14. cadeira velha, apoiando meu corpo cuidadosamente com as
  15. mãos na mesa para me levantar, e então, segui em direção
  16. à minha porta, com intenção de abri-la.
  17. Lá fora minha esposa estava andando em círculos em volta
  18. da fonte central do vilarejo, jogando rosas e cantando uma
  19. música tradicional da nossa região, com um sorriso angelical
  20. e um brilho nos olhos. Corri imediatamente até ela, e
  21. ajoelhei-me, segurando suas mãos fortemente. Meu olhar
  22. fixo e que demonstravam muita seriedade, em seus olhos, a
  23. preocuparam profundamente, ela começara a perguntar incessantemente
  24. se havia acontecido alguma coisa, se eu estava
  25. bem, e eu de alguma forma não conseguia responderlhe
  26. as perguntas, pois me sentia fraco demais, como se a
  27. morte estivesse próxima e cada vez mais inconsciente.
  28. E então finalmente perco minha consciência. Meu corpo
  29. caiu sobre o chão composto de pedras e de repente, encontrei-
  30. me no meio da floresta, e lembro-me perfeitamente de
  31. ser uma floresta muito onírica, com cores desprovidas de
  32. vida, um fortíssimo cheiro de limo com musgo, me veio à
  33. cabeça naquele momento a imagem de um pântano. Corri
  34. novamente, mas desta vez para qualquer lado, de maneira
  35. completamente aleatória, com uma vaga esperança de conseguir
  36. voltar ao vilarejo, e infelizmente me deparei com algo
  37. que me intrigara fortemente.
  38. Um tronco de árvore, bem escuro, úmido, com superfície
  39. plana, e que carregava em seu topo uma espécie de pedestal
  40. pequeno, feito de ossos, que guardava um manuscrito.
  41. Manuscrito de papel aparentemente muito antigo, escrito
  42. com uma tinta tão forte que eu podia sentir seu estranho
  43. odor, e isso era muito estranho pois o manuscrito realmente
  44. aparentava possuir muitos anos de existência.
  45. A página não continha nenhum título, continha apenas palavras
  46. escritas de maneira que eu nunca havia visto, o texto
  47. continha um padrão de beleza que me fizera sentir um intenso
  48. e curioso prazer, e certamente, quando pensei em
  49. todo este conjunto de eventos, entrei num estado completamente
  50. absorto e também de uma duvida indizível, de uma
  51. completa solidão, que me atormentava terrivelmente.
  52. O ambiente era favorecia muito o meu desespero, haviam
  53. sons aleatórios provenientes de variados animais que pertenciam
  54. à floresta, ventos que pareciam ser soprados em
  55. meu corpo e isso me arrepiava muitas vezes, o estado
  56. mental era complexo demais naquele momento, é impossível
  57. para você imaginar perfeitamente.
  58. No antigo texto continha o seguinte:
  59. "Vossa presença neste local é digna de comemoração,
  60. À muito tempo um mortal não sente os proibidos prazeres
  61. de meu chá. Uma vez inspirei uma fraca e iludida senhora à
  62. fazê-lo, mas muitas vezes tive de possuir seu corpo para
  63. guiá-lo pela floresta, para colher assim a planta correta, já
  64. que sua visão não era boa.
  65. Eram tempos de grandes desventuras, era mais fácil satisfazer
  66. Os Grandes, Os Grandes eram portadores de todo o
  67. ódio e sentimentos mais terríveis que a humanidade insiste
  68. em perpetuar.
  69. Saiba que sua morte será de muito bom grado para a minha
  70. legião, aguarde pobre tolo"
  71. Acordei muito assustado, nos braços de minha mulher, sobre
  72. minha cama e ouvindo sua doce voz me dizer que estava
  73. tudo bem, que eu não tinha com o que me preocupar,
  74. que apenas me senti um pouco tonto por alguns instantes e
  75. que não havia acontecido nada. Havia me tranqüilizado naquele
  76. momento, afinal, não havia como não haver tranqüilidade
  77. com tamanha divindade cuidando de mim.
  78. Infelizmente, minha tranqüilidade fora interrompida quando
  79. eu avistara uma caneca de chá quente sobre a pequena
  80. mesa ao lado de minha cama. Perguntei neste momento
  81. para ela aonde ela conseguira as ervas para o preparo daquele
  82. chá, e ela me disse que as encontrou no mesmo lugar
  83. que encontrou aquelas que havia me dito, próximo às
  84. pedras na Floresta, e que eram uma delícia.
  85. Neste momento eu fiquei absurdamente apavorado e preocupado,
  86. pois agora sabia que ela havia tomado do chá, e
  87. temi fortemente que ela viesse a ter sonhos estranhos também.
  88. Já não bastava o meu tormento, ter que vê-la apavorada
  89. também seria insuportável, jamais!
  90. Alguém batera na porta, pois naquele momento ouvi um barulho
  91. muito alto, composto por uma batida que se seguia
  92. por mais duas. Minha esposa levantara da cama e me pedira
  93. para esperar, me chamando de amor, com aquele olhar
  94. encantador, me dando um beijo na testa, e se retirando do
  95. quarto para abrir a porta e atender a pessoa que lá se encontrava.
  96. Meus olhos se arregalam ao ouvir minha esposa me perguntando
  97. se eu conhecia a senhora que estava ali presente,
  98. pois obviamente, eu ficara sem resposta, tudo o que
  99. pude fazer naquele momento, foi ir até lá, olhar para ela, e
  100. assim livrar uma certa curiosidade que estava em mim.
  101. Revestida de trajes escuros e portadora de uma caixa de
  102. madeira, ela estendeu os seus braços e entregou-me a caixa,
  103. dizendo que ali continha um precioso presente, do qual
  104. minha esposa eu poderíamos compartilhar. Eu disse obrigado,
  105. cordialmente, e ela vagarosamente foi embora.
  106. Minha esposa me levou de volta para a cama puxando-me
  107. pela minha mão, e logo após me beijar, pediu-me para que
  108. eu abrisse a misteriosa caixa. Nós dois ficamos completamente
  109. indignados com o objeto que ali dentro estava, pois
  110. era uma pequena estatueta que se encontrava em cima de
  111. um livro, ambos eram muito bem trabalhados. A estatueta
  112. era de aparência indizível e perturbadora, mas de alguma
  113. forma, interessante e intrigante.
  114. O livro tinha um símbolo estranho na capa, e era uma capa
  115. dura. As folhas eram iguais a do manuscrito do meu sonho,
  116. da mesma textura, mesmo papel, mesmo cheiro esquisito
  117. da tinta, aquilo tudo estava sendo fantástico demais para
  118. mim. Após este momento olhei para o lado, e vi minha esposa
  119. com um olhar fixo sobre o livro, e com olhos assustadores,
  120. uma expressão aterradora.
  121. Perguntei a ela o que havia acontecido, perguntei com a
  122. mesma seriedade que minha esposa havia me perguntado
  123. quando me viu ajoelhado diante dela naquele outro dia, e
  124. ela me disse com uma voz trêmula, que o símbolo do livro,
  125. era o mesmo daquelas pedras próximas das plantas que
  126. ela havia colhido.
  127. Percebi então neste momento que meu sonho poderia ter
  128. sido real, ou ter sido alguma espécie de aviso ou comunicado
  129. importante. Meu temor possuía níveis altíssimos, assim
  130. como o dela, devido a ausência de compreensão de ambas
  131. as partes e a atormentadora atmosfera indescritível de tudo
  132. isso poderia ter sido causado por bruxaria.
  133. Minha esposa abaixou a cabeça, e permaneceu assim por
  134. algum tempo. Eu a segurei em seus ombros e a sacudi levemente
  135. para fazê-la levantar a cabeça e porque estava
  136. muitíssimo preocupado com ela e ela de repente, levantou
  137. sua cabeça, olhou para mim, e começou a me beijar freneticamente,
  138. a agarrar-me violentamente.
  139. Deitara o meu corpo na cama e rasgara minhas vestes, me
  140. beijando incessantemente, lambendo cada parte de meu
  141. corpo como se nunca tivesse feito isso antes, parecendo
  142. estar possuída com um desejo incontrolável de fazer sexo
  143. comigo.
  144. Após longas horas de insana tentação e prazer, caí no
  145. sono, e iniciou-se outro sonho, onde aquela senhora se fazia
  146. presente novamente, e com vestes ainda mais escuras,
  147. mas desta vez com um cajado, e diante de uma dança descontrolada
  148. de pessoas desconhecidas em volta de uma fogueira.
  149. No sonho eu estava junto a roda, dançando, e cantando
  150. numa língua que nunca havia falado e visto na minha vida,
  151. aparentemente eu estava hipnotizado.
  152. Acordei repentinamente no centro do vilarejo, próximo à
  153. fonte, deitado no chão, com todos os moradores me acusando
  154. de ter trazido a bruxa para o vilarejo, de ter trazido os
  155. males da floresta para o vilarejo, de ter trazido a condenação
  156. para todos, dentre muitas outras coisas desagradáveis.
  157. Sem saber como fui parar ali, levantei-me, e ignorando as
  158. acusações, entrei-me em minha casa, e fiquei abismado ao
  159. notar que minha esposa não estava em casa, e considerando
  160. os eventos anteriores, me enchi com uma intensa preocupação
  161. e saí rapidamente em rumo à floresta.
  162. O céu começou a encher-se de nuvens carregadas, a atmosfera
  163. em combinação com a floresta a gerara um clima
  164. demasiado macabro, do qual me inspirara a rezar com toda
  165. a minha fé, de maneira que nunca antes eu rezara, até ser
  166. interrompido por um cervo que parou em minha frente após
  167. saltar de um arbusto.
  168. O animal possuía olhos terrivelmente vermelhos e parecia
  169. realmente muito interessado em mim, de alguma forma,
  170. pois não os desviava para nenhum outro ponto, olhava apenas
  171. para meus olhos, e nada mais.
  172. Esta hipnose insana permaneceu até o cervo começar a
  173. correr para dentro da floresta, e eu, sem escolha, decidi fazer
  174. o mesmo, seguindo-o sem rumo, sem idéia de para
  175. onde ele estava me levando.
  176. Percebi que na mata haviam aspectos parecidíssimos com
  177. os dos sonhos, e vi o tronco do primeiro sonho passar ao
  178. meu lado esquerdo, também vi a mata que havia no segundo
  179. sonho, no horizonte de onde dançávamos.
  180. Avistei grandes galhos queimados e cinzas por todo o chão,
  181. lembrei-me da fogueira do sonho, e após ficar ali contemplando
  182. este cenário nostálgico, senti uma dor na cabeça, e
  183. tudo escureceu-se novamente.
  184. Vi sangue, sexo, soturnas formas, cenários mórbidos e oníricos,
  185. seres que me assustavam e me cercavam, senti o
  186. mais elevado medo que é possível um ser humano sentir. E
  187. de repente...
  188. Me vi deitado sobre a mesa, com o rosto enrugado e com
  189. um sentimento de preguiça, vi a luz do sol pela janela, iluminando
  190. a mesa, e escutei o trivial som dos pássaros cercando
  191. a minha casa como sempre, e a caneca de chá vazia em
  192. minha frente.
  193. Levantei-me da cadeira sem acreditar no sonho terrível que
  194. eu acabara de ter, e fui abraçar minha mulher, que se encontrara
  195. ao lado da fonte, para esquecer deste outro sonho
  196. terrível.

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