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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Conto - Anaeteth

Anaeteth
Um conto de Ericson Willians.

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  1. Minha vida acabara quando atendi aquele maldito telefone,
  2. eu desci as escadas com o cabelo desarrumado às 3 da
  3. manhã sem nem ao menos entender o que estava acontecendo
  4. naquele momento, ele não havia me informado de
  5. absolutamente nada.
  6. Acabei por me mudar para um lugar que me jogara no abismo,
  7. localizado literalmente no meio do nada, já que ao redor
  8. do vilarejo só existem quilômetros de floresta ressecada
  9. e desprovida de vida.
  10. Meu vizinho, que me ligara a poucos instantes, era pai do
  11. jovem Patrick, que constantemente desaparecia, sem deixar
  12. pistas. Naquela mesma noite o pai de Patrick Steinhoff
  13. me pedira que o acompanhasses pela floresta para ajudarlhe
  14. na busca de seu filho, já que o mesmo tivera um pesadelo
  15. terrível envolvendo o seu filho e um grupo que o preocupava
  16. muito.
  17. Todos os moradores do local mantinham suas janelas fechadas
  18. durante a noite, assim como todas as portas trancadas,
  19. menos eu. Voltavam sempre para suas casas após as
  20. 10 horas da noite, e levavam os animais para dentro de
  21. seus respectivos estabelecimentos, afirmando temerosos
  22. acontecer coisas inexplicavelmente perturbadoras.
  23. Eles disseram que colocavam os animais para dentro porque
  24. se não o fizessem um ou dois deles morreriam de maneira
  25. terrível, e porque sempre que isso ocorre nunca é encontrado
  26. nenhum sangue dentro do anima, e que todas as
  27. vezes sempre ocorre entre as 10 horas da noite e 3 da madrugada.
  28. Para todos no vilarejo a floresta possui vida própria, e aqueles
  29. que lá permaneceram por alguns instantes durante este
  30. período voltaram em profundos estados de loucura, chorando
  31. em momentos indefinidos e com olhares vazios, de maneira
  32. que assustaria até o mais terrível dos homens.
  33. Mas naquele momento eu não sabia de nada, e voltando
  34. àquela maldita noite: Eu me senti muito mal assim que saí
  35. de casa, com aquela brisa gélida que carregava um cheiro
  36. indescritível de terra úmida, e com aquele céu cor verde-escuro
  37. absolutamente assustador a um ponto de me fazer
  38. acreditar na possibilidade do mesmo ter sugado as cores
  39. daquela floresta morta infernal.
  40. Na medida em que entrávamos na floresta o cheiro aumentava
  41. e de alguma forma a distância de nós dois e o vilarejo
  42. também, de maneira que dava a impressão de que quando
  43. olhávamos para trás estivéssemos cada vez mais afastados,
  44. e que estivesse cada vez mais escuro, e isso mesmo
  45. levando em consideração de que tínhamos plena consciência
  46. de que não tínhamos andado muito.
  47. Era quase impossível ouvir os próprios passos e não existia
  48. nenhum som no ambiente, era como se até os grilos estivessem
  49. mortos e os ventos não balançassem os galhos retorcidos.
  50. Eu me sentia cada vez mais estranho naquele lugar
  51. completamente enlouquecedor.
  52. Anaeteth! Exclamou o senhor Steinhoff, e naquele momento
  53. eu não havia entendido o que ele dissera, eu nunca ouvira
  54. este nome e nem nada parecido em absolutamente nenhum
  55. lugar, eu achei particularmente muito estranho ele dizer
  56. este nome tão repentinamente, mas eu ignorei um pouco e,
  57. prestando atenção aonde eu pisava, comerei a caminhar
  58. novamente enquanto ele começava a contar.
  59. Segundo ele Anaeteth é uma ordem ocultista que nasceu
  60. em Londres no século XVII, após o grande incêndio de
  61. 1666 que devastou a cidade. Um jovem excêntrico que assistira
  62. sua família morrer com a última epidemia da peste
  63. negra ficara obcecado pelo ocultismo quando encontrara
  64. um livro de origem obscura intitulado: Colubra Terribilis.
  65. Dizem as lendas que este livro é capaz de abrir as portas
  66. dos planos inferiores e assim possibilitar a passagem de
  67. demônios para o nosso plano físico e assim realizar uma
  68. troca de favores. Eles pedem a liberdade de poder sacrificar
  69. a vida de qualquer humano deste planeta, crime pelo qual é
  70. cometido por eles mesmos, sob o comando daquele que o
  71. opera, e sendo assim, eles realizam tudo o que o ocultista
  72. deseja.
  73. Pai de Patrick contava tal história com muito receio, era
  74. muito notável, de maneira que era como se ele estivesse
  75. sendo cauteloso. Após o término da conversa eu olhei para
  76. os céus e percebi que não havia mais nada, absolutamente
  77. nada, as estrelas haviam sumido! Estava tudo escuro neste
  78. momento como se houvesse uma camada de sombra muito
  79. espessa sobre a floresta.
  80. O meu relógio despertara, e quando eu parei para olhá-lo
  81. senti algo indescritivelmente terrível dentro de mim, eu não
  82. conseguia acreditar no que eu havia visto, eram 10 horas!
  83. Comecei a olhar para o senhor de maneira que o assustara,
  84. e rapidamente eu o informei do que eu acabara de ver.
  85. Sua respiração aumentara gradativamente e ele entrara
  86. num profundo desespero, seus olhos viraram lentamente
  87. para cima e logo ele perdeu sua consciência. Infelizmente,
  88. neste momento, começara a chover. Perdido e sem saber o
  89. que fazer, eu o carreguei em meus braços e caminhei aleatoriamente
  90. pela floresta com esperanças de encontrar alguma
  91. saída, me esforçando para ignorar o coro de vozes que
  92. se confundia com o vento e que batia fortemente em meu
  93. rosto, me enlouquecendo cada vez mais.
  94. Seguindo uma luz esverdeada no horizonte consegui encontrar
  95. um lugar desprovido de árvores, e lá avistei uma caverna
  96. iluminada por tochas e com uma escadaria. Levando
  97. em consideração o lugar aonde eu me encontrava e o meu
  98. estado só me restava descer as escadas com o intuito de
  99. explorar e ver se encontrava alguma ajuda ou alguma saída,
  100. algo que pudesse me livrar daquela situação infernal.
  101. Desci muito concentrado para não cair, pois o corpo estava
  102. muito pesado e aquele ambiente não era nada agradável,
  103. esta combinação certamente bagunçava com o meu equilíbrio.
  104. Aquela maldita escadaria aparentava não ter fim! Era
  105. uma estrutura de arco-romano sobre os degraus que desciam,
  106. e os mesmos paravam num chão plano, cuja continuação
  107. eram escadas iguais, e assim sucessivamente.
  108. Haviam inscrições por toda parte! Nas paredes, no chão, no
  109. teto, em tudo! Haviam também tochas nas paredes de pedra
  110. e estátuas em cada novo chão plano que chegava. Sem
  111. duvida o mais estranho disso era que as estátuas não ficavam
  112. nas laterais e sim no meio do chão, como se estivessem
  113. sendo apresentadas àqueles que entravam.
  114. Quanto mais eu descia, mais as estátuas tinham uma aparência
  115. terrível! As inscrições em cada nível da escada pareciam
  116. estar relacionadas a cada estátua, e todas eram numa
  117. língua indizível e que eu nunca havia visto em toda minha
  118. vida.
  119. Finalmente! Cheguei no último degrau! Estava quase desmaiando,
  120. minha mente aparentava estar sendo drenada, eu
  121. precisava de muita concentração para não ter que apreciar
  122. um cenário infernal dando voltas. De alguma forma eu não
  123. conseguia lembrar das coisas boas da minha vida, eu não
  124. tinha mais nenhuma esperança!
  125. O arco sobre a porta de carvalho era mais verde-escuro em
  126. relação às outras pedras como se estivesse apodrecendo a
  127. partir daquele exato ponto, e de maneira estranha o vão por
  128. de baixo da porta emitia uma espécie de luz negra, o que
  129. obviamente não fazia sentido algum.
  130. Mas sem pensar duas vezes, abri a porta rapidamente, para
  131. não ter que ficar olhando o que havia por trás daquele cenário
  132. pouco a pouco, para quebrar o clima de tensão. E foi
  133. exatamente neste momento! Finalmente, neste momento!
  134. Que eu desmaiei. Eu me vi exatamente no meio da floresta
  135. com um monte de pessoas estranhas e revestidas com um
  136. longo manto preto, eu não fazia mais idéia nenhuma do que
  137. estava acontecendo, só queria tudo aquilo acabasse, era
  138. tão terrível!
  139. De repente eu ouvi um barulho de intensidade muito grande,
  140. era um barulho diferente de tudo o que eu já tinha ouvido,
  141. e inesperadamente ficara tudo completamente preto.
  142. Somente após um tempo ali desmaiado, abri os olhos e me
  143. encontrei no meio de uma pedra, amarrado até os pés, assim
  144. como o Pai de Patrick no meu lado esquerdo.
  145. Havia um círculo de estátuas enormes, e eram as mesmas
  146. que eu avistara enquanto descia aquelas escadas, mas a
  147. diferença era a de que tamanho desta vez era monumental.
  148. O círculo era perfeito, e todos que estavam ali presentes
  149. dançavam de maneira diabólica, como se estivessem todos
  150. possuídos, parecia muito com uma espécie de culto ou cerimônia,
  151. mas não fazia idéia do propósito.
  152. Uma dessas pessoas não estava dançando, e esta se aproximou
  153. de mim, tirou-me o capuz. Era uma mulher com uma
  154. expressão aterradora em seu rosto, ela colocara num bloco
  155. de pedra entre eu e o pai de Patrick o livro, o Colubra Terribilis.
  156. Começara então a professar umas palavras estranhas sem
  157. desviar os olhos arregalados do livro, e com os braços
  158. abertos e levantados, mas um pouco curvados, e ela possuía
  159. uma espécie de véu negro que revestia a parte dos braços
  160. no manto negro.
  161. Uma espécie de respiração começara a aumentar, e pouco
  162. a pouco a pedra onde eu estava começara a tremer. Os
  163. olhos das estátuas ao redor ascenderam, e os olhares!
  164. Aqueles olhares! Não os esquecerei por infinitas vidas.
  165. Conforme os sons, urros infernais, respirações ofegantes,
  166. gritos e os tremores aumentavam gradativamente, tanto
  167. quanto, aumentava a minha loucura.
  168. E finalmente aquela terra negra no espaço entre mim e o
  169. senhor levantara com um estrondo enorme, e em menos de
  170. dois segundos havia uma serpente negra de três cabeças me encarando.
  171. Em seguida, ao som de raios, acordei em meu quarto com
  172. o despertador tocando, marcando a minha volta para a
  173. vida, eram 3 horas.
Desenho por: MSDesigns

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